Jorge não podia e nem queria acreditar. Seu sonho, sua mente, seu coração, sua razão de viver estava ali, caída ao chão, olhos semi-cerrados que ele próprio fechara com os dedos. O pranto fez-se manto de Jorge.
Por um momento, pensou em se matar; O mesmo pensamento ocorreu-lhe outras vezes em todos os momentos em que estava ali junto ao corpo de Alice. Os vizinhos, alertados pelo desespero nada silencioso do fotógrafo, foram aparecendo à porta aos poucos. Em instantes, a polícia foi acionada junto à ambulância. Não tardaram muito a chegar, tanto quanto fora a demora para convencer Jorge a separar-se do corpo da mulher. O homem sentia-se como um cordão umbilical de sua amada, e tais policiais fizeram o corte cirúrgico que todo obstreta necessita fazer diante do nascimento de uma criança.
Vazio. Era essa a sensação do infeliz naquele instante. Sempre teve uma ideia de frieza relacionada à policiais. No minuto seguinte, teve a certeza:
- Nome, por favor? - perguntou a policial negra.
- Jorge.
- Completo.
- Jorge Otávio de Almeida Sá.
Não acreditava que estavam lhe fazendo perguntas diante de tal acontecimento. Poderia um ser humano ser insensível a tal ponto?
- Sr. Jorge, queira me acompanhar, por favor, para fora do local do crime. O senhor será escoltado imeadiatamente até a delegacia mais próxima para recolhimento de testemunho e outras informações que puderem servir no prosseguimento da investigação. Após feito o boletim de ocorrência, o senhor estará livre para voltar a seus afazeres.
"Voltar a meus afazeres?", pensou Jorge. Teve vontade de gritar com a policial, dizer que seus afazeres haviam terminado ali, naquela noite. Nesse momento, não pensou mais em suicídio, e sim matar a negra à sua frente, tamanha raiva que estava. Por sorte e pelo pouco de sanidade que lhe restavam, não o fez...
Fora uma longa noite para Jorge. Contara aos policiais todo o seu dia anterior, omitindo apenas o nome de Marina e consequentemente, o porquê de ter se encontrado com Marina. Isso só dizia direito à ele mesmo e à garota. Negara qualquer inimigo que Alice pudesse ter - realmente não recordava de algum possível... -, negara qualquer desavença entre o casal - ambos não brigavam há bastante tempo, e do mesmo jeito Jorge nunca levantara sequer a mão para Alice - , e negara qualquer motivo que pudesse ter levado à tal crime.
No decorrer do depoimento, fora recolhendo informações que chegavam sobre o denominado "Caso Alice": segundo os legistas, a mulher havia sido assassinada por volta de 19 horas, levando em consideração o tempo em que o sangue parara de correr pelas veias sanguíneas e outros fatores médicos... O termo "assassinato" fora de fato usado, pois além de esfaqueada, Alice estava também com sinais de estrangulamento, que fora de fato o real motivo de sua morte. A faca encontrada no chão próximo à cozinha não continha sinais de sangue e fora levada para análise de digitais. Tudo indicava que após ter tirado a vida de Alice com as próprias mãos, cordas, ou qualquer objeto que fosse no pescoço da mulher, o assassino a esfaqueou e fugiu pela porta de entrada ou pela janela. Jorge também ouvira que os vizinhos foram questionados, e nenhum disse ter ouvido sinais de arrombamento de porta, gritos, discussões ou qualquer atitude suspeita.
De acordo com os relatos de Jorge, o delegado concluiu que o álibi do fotógrafo estaria gravado na fita da agência bancária da qual o mesmo afirmara estar na hora do assassinato. O responsável pelo caso, Dr. Pacheco, informou que até que a polícia estivesse em posse da gravação, Jorge estaria livre, porém impedido de sair da cidade. O mesmo concordou, logicamente. Não tinha intenção de sair de seu corpo, quanto mais de sua cidade. Pacheco prometera à Jorge resolver o crime. O que não sabia, é que Jorge nunca acreditara em promessas.
Saiu da delegacia e foi para o hotel mais próximo. Agora já não pensava mais em se matar, ou matar a policial negra. Pensava em vingança, gostava da ideia de saborea-la, desfruta-la em cima do animal que tirara a vida de sua Alice. Pacheco não teria a mesma convicção, não era sua esposa que estava morta, ensanguentada, que não teria um funeral digno por ter tido o corpo totalmente estraçalhado.
Pensou em tudo. Tudo mesmo. Pensou principalmente em nomes, em pessoas. Alice, Marina, Diego, Carlos, Regina, Lúcia, Gregório, a policial negra, Pacheco, Amália, Amaury, Magda, Miguel...
Pnesou em vingança. Pegou o celular e ligou para Alberto.
[CONTINUA...]
Por Pedro Henrique Castro.
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"Meias-Verdades" - Capítulo 1: "A jovem loira, o ex-amigo e Alice"
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
domingo, 11 de outubro de 2009
"Meias-verdades" - Capítulo 1: "A jovem loira, o ex-amigo e Alice"
Era uma fria tarde de domingo. Jorge caminhava distraidamente por aquela praça enfeitada com três bancos de madeira, alguns poucos postes de luz - e nem todos os postes estavam com as luzes acesas - e o chão carpeteado pelas folhas secas caídas das árvores que ali cercavam. Carregava em seus braços somente um pequeno caderno preto e um envelope branco visivelmente com algo dentro. O vento forte fazia juz à aparência séria do homem de 34 anos. Já era rotina para o fotógrafo ir frequentemente àquela praça ao alvorecer.
Caminhou até o centro da praça, onde avistou uma mulher loira, aparentemente bem nova, sentada em um dos bancos. Mascava chiclete e deixava à mostra os fones de ouvido devido ao cabelo preso em rabo de cavalo. Aos que olhavam de longe, parecia que os dois nunca haviam se visto e que o encontro de ambos era um acaso completo. Por um minuto, até Jorge pensara que continuaria sua caminhada sem parar para falar com a jovem loira, mas no instante em que o homem se posicionou em sua frente, a mesma se levantou. Após uma breve troca de olhares e um sorriso de canto de boca da moça, as primeiras e poucas palavras foram trocadas:
- Se atrasou hoje, hein, Jorge...
- Somente o necessário, Marina, por favor!
- Mas você não quer nem sa... - A frase não chegou a ser completada, pois a garota foi bruscamente interrompida por uma enfática e sonora negação como resposta para sua possível pergunta.
- Agora vá! Vá, anda logo! - disse Jorge após entregar o envelope à jovem loira.
O homem retornou em direção de onde viera e saiu amargurado da praça. As finas gotas de chuva começavam a cair, e quando Jorge virou o rosto para proteger-se da violenta mistura do vento forte junto à camada de chuva, Marina já não estava mais em seu campo de visão.
A sétima badalada acabava de acontecer no momento em que Jorge se encontrava entre a catedral e uma agência bancária da qual havia acabado de sair. Passou por uma livraria, uma farmácia, uma papelaria e por Carlos. No momento em que os olhos castanhos de Carlos passaram pelos olhos vermelhos de Jorge, tanto a livraria, quanto a farmácia e a papelaria pareciam ter sumido do mapa. O antagonismo entre os dois já era antigo e conhecido por todos da redondeza. O motivo, no entanto, lhes conto em breve...
Jorge apressara o passo para evitar qualquer confusão com aquele que um dia já fora seu amigo. Parou, ofegante, apoiando os braços em uma mureta sob o espelho da fachada de um prédio comercial. Olhando para si mesmo, Jorge se achou velho, infeliz, acabado. Queria livrar-se de sua amargura; Forçava-se a pensar em coisas boas; Precisava pensar em Alice.
Na verdade, nem preciso era. Alice era a íris dos olhos de Jorge; Alice era o nome de dez das dez coisas em que Jorge pensava diariamente; Alice era o e o coração de Jorge. Por um minuto, o fotógrafo fechou os olhos e imagens, vídeos, sons vieram à sua cabeça: Lembrou-se da primeira vez que vira Alice, do primeiro beijo entre os dois, do sorriso e da mexida de cabelo que faziam Jorge ficar encantado sempre que a mulher repetia os mesmos gestos... O homem achou-se idiota por continuar parado e não viu outra opção, senão ir para casa encontrar Alice e enchê-la de abraços, beijos e carinhos sem ter fim...
As lembranças recentes deram à Jorge o primeiro sorriso do dia, que permaneceu em seu rosto até o momento em que girou a maçaneta e abriu a porta de sua casa. O tal sorriso desapareceu com a mesma facilidade que havia surgido. Lentamente, Jorge entrou e se ajoelhou diante de um corpo branco e gélido como a neve; Apoiou-se sobre um coração sem batimentos; Olhou diante de olhos ainda abertos, porém sem movimento; Banhou-se em um rio vermelho do qual ele nunca imagira e sequer gostaria de se banhar.
Não reparou nos objetos quebrados em sua sala, na faca caída ao chão próximo à cozinha, na janela aberta deixando esvoaçar sua cortina.
Era o corpo de Alice deitado no chão. Morta por fora, morta por dentro.
Era o corpo de Jorge debruçado sobre Alice. Vivo por fora, morto por dentro.
[CONTINUA...]
Por Pedro Henrique Castro.
Caminhou até o centro da praça, onde avistou uma mulher loira, aparentemente bem nova, sentada em um dos bancos. Mascava chiclete e deixava à mostra os fones de ouvido devido ao cabelo preso em rabo de cavalo. Aos que olhavam de longe, parecia que os dois nunca haviam se visto e que o encontro de ambos era um acaso completo. Por um minuto, até Jorge pensara que continuaria sua caminhada sem parar para falar com a jovem loira, mas no instante em que o homem se posicionou em sua frente, a mesma se levantou. Após uma breve troca de olhares e um sorriso de canto de boca da moça, as primeiras e poucas palavras foram trocadas:
- Se atrasou hoje, hein, Jorge...
- Somente o necessário, Marina, por favor!
- Mas você não quer nem sa... - A frase não chegou a ser completada, pois a garota foi bruscamente interrompida por uma enfática e sonora negação como resposta para sua possível pergunta.
- Agora vá! Vá, anda logo! - disse Jorge após entregar o envelope à jovem loira.
O homem retornou em direção de onde viera e saiu amargurado da praça. As finas gotas de chuva começavam a cair, e quando Jorge virou o rosto para proteger-se da violenta mistura do vento forte junto à camada de chuva, Marina já não estava mais em seu campo de visão.
A sétima badalada acabava de acontecer no momento em que Jorge se encontrava entre a catedral e uma agência bancária da qual havia acabado de sair. Passou por uma livraria, uma farmácia, uma papelaria e por Carlos. No momento em que os olhos castanhos de Carlos passaram pelos olhos vermelhos de Jorge, tanto a livraria, quanto a farmácia e a papelaria pareciam ter sumido do mapa. O antagonismo entre os dois já era antigo e conhecido por todos da redondeza. O motivo, no entanto, lhes conto em breve...
Jorge apressara o passo para evitar qualquer confusão com aquele que um dia já fora seu amigo. Parou, ofegante, apoiando os braços em uma mureta sob o espelho da fachada de um prédio comercial. Olhando para si mesmo, Jorge se achou velho, infeliz, acabado. Queria livrar-se de sua amargura; Forçava-se a pensar em coisas boas; Precisava pensar em Alice.
Na verdade, nem preciso era. Alice era a íris dos olhos de Jorge; Alice era o nome de dez das dez coisas em que Jorge pensava diariamente; Alice era o e o coração de Jorge. Por um minuto, o fotógrafo fechou os olhos e imagens, vídeos, sons vieram à sua cabeça: Lembrou-se da primeira vez que vira Alice, do primeiro beijo entre os dois, do sorriso e da mexida de cabelo que faziam Jorge ficar encantado sempre que a mulher repetia os mesmos gestos... O homem achou-se idiota por continuar parado e não viu outra opção, senão ir para casa encontrar Alice e enchê-la de abraços, beijos e carinhos sem ter fim...
As lembranças recentes deram à Jorge o primeiro sorriso do dia, que permaneceu em seu rosto até o momento em que girou a maçaneta e abriu a porta de sua casa. O tal sorriso desapareceu com a mesma facilidade que havia surgido. Lentamente, Jorge entrou e se ajoelhou diante de um corpo branco e gélido como a neve; Apoiou-se sobre um coração sem batimentos; Olhou diante de olhos ainda abertos, porém sem movimento; Banhou-se em um rio vermelho do qual ele nunca imagira e sequer gostaria de se banhar.
Não reparou nos objetos quebrados em sua sala, na faca caída ao chão próximo à cozinha, na janela aberta deixando esvoaçar sua cortina.
Era o corpo de Alice deitado no chão. Morta por fora, morta por dentro.
Era o corpo de Jorge debruçado sobre Alice. Vivo por fora, morto por dentro.
[CONTINUA...]
Por Pedro Henrique Castro.
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