quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Meias-Verdades" - Capítulo 11: "Sexo"

Os corpos se abraçavam. A língua da mulher percorria o peitoril musculoso do homem, que por sua vez pegava com força o cabelo longo da acompanhante. Os braços da morena de cabelos longos envolviam as costas do rapaz à sua frente. Suas bocas agora quase se encostavam, enquanto barriga, ombros e braços já se conectavam como imãs que eram. As belas e longas pernas dela cruzavam as peludas e grossas pernas dele. Não era preciso muito esforço. Ambos se enroscavam como chave e fechadura, como o oco e o eco. A linda mulher gemia de prazer enquanto mexia-se lentamente sobre a região que considerava a mais doce do rapaz. Seus cabelos caíam formando uma cortina ao redor de seu corpo esbelto e esculpido cuidadosamente pelo arquiteto mais generoso que já tivera existido em qualquer tipo de vivência. Era Alice.

Jorge se contorcia diante do banco de seu carro. Queria abrir os olhos, mas não conseguia. A cena era muito nítida.

Alice subia e descia no corpo do homem, que agora estava deitado sobre a cama de casal. Os movimentos eram jocosos e os corpos não se desgrudavam por um segundo sequer. Pareciam estar em sintonia. A mulher de repente desce seu corpo e vai delicadamente até o ouvido do parceiro. Ao invés de um romântico "Eu te amo", as únicas palavras que saem da boca da morena são outras.

- Mete tudo! Isso... Vai!

O homem pareceu não se surpreender. A obscenidade fez com que ele se renovasse e aumentasse sua força diante da mulher.

- Mais forte, mais forte! Você sabe como eu gosto, não sabe?

A sincronia entre os dois agora era mecânica. Os corpos pareciam trabalhar como máquinas, envoltas em um processo de produção individualista baseado nas idéias do Taylorismo. Cada um fazia sua parte e o prazer dado era o mesmo prazer recebido. Era, literalmente, colher o que havia plantado...

Jorge não queria lembrar daquele momento. Tantas cenas de Alice para lembrar, e justo aquela lhe percorria a mente. Seus olhos não abriam, queria sair daquilo antes que chegasse ao final do ocorrido.

A mulher agora estava de bruços e o homem deitado por cima de seu corpo. O ritmo agora ia desacelerando, e a feição do rapaz era de extremo vigor e satisfação própria. Estava satisfeito e não pensava em mais nada além do jato de cansaço que havia semeado há pouco. Virou-se e deitou-se ao lado de Alice. Não pensou em se cobrir, nem em ir ao banheiro para se limpar. Homem e mulher se olharam e antes que qualquer um dos dois pudesse dizer algo, foram surpreendidos pela porta que ia se abrindo.

Jorge agora se via na cena. Não estava deitado na cama ao lado de Alice, mas sim abrindo a porta e flagrando a mulher deitada com outro em sua cama.Nunca havia desconfiado, e por infortúnio da vida, havia saído antecipadamente de seu estúdio fotográfico. A visão atingiu-lhe o coração e fez com que o fotógrafo ficasse desamparado e revoltado com tudo. O quarto estava girando e não sabia se não queria ou não podia acreditar no que estava vendo. Sua amada Alice estava deitada na cama ao lado de seu melhor amigo, Carlos.

Parecia uma lembrança proposital da mente do homem. Ele agora acordara, agoniado pela má lembrança que tivera. Foi a partir desse dia que Carlos tornou-se o vilão de sua própria história...


[CONTINUA...]



Por Pedro Henrique Castro.



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"Meias-Verdades" - Capítulo 11:"Preconceito e Hipocrisia"

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"Meias-Verdades" - Capítulo 11: "Preconceito e Hipocrisia"

A reação dos dois era de estranheza. Tanto da parte de Alberto quanto da parte de Cristina, o questionamento fez-se presente. O silêncio foi cortado depois de alguns segundos.

- Oi, eu gostaria de falar com o Jorge.
- Ele não está! Posso avisar à ele que você veio aqui.
- Não, não precisa. Eu passo mais tarde, ou talvez amanhã...
- Ele não deve voltar nem hoje, nem amanhã... O Jorge viajou!
- Ah... Não sabia.
- É, foi pro Rio de Janeiro...
- Ah, vim chamá-lo para... bom, esquece!
- Qual seu nome?
- Cristina.
- Eu dou seu recado, Cristina... Você ia chamá-lo para...
- Nada demais! Eu espero até que ele volte - respondeu uma desanimada Cristina.



A cabeça de Jorge doía. Saía sangue de seu supercílio, de seu nariz e de um dos cantos de sua boca. O corpo todo estava dolorido e lhe produzia uma forte dor de cabeça. Um dos três motoristas saíra de seu carro impaciente, já gritando palavrões ao fotógrafo. Crianças de dentro do carro, provavelmente os filhos do homem, olhavam assustados para o nervoso pai que pelos gestos parecia estar instigando uma briga no meio da rua. A motorista do outro carro encontrava-se parada diante do volante, desacordada. Jorge foi até o carro para ver se a mulher estava em boas condições, e por sorte, constatou que o caso não devia ser demasiadamente sério. Em segundos, seu caos havia se multiplicado. Teria que esperar ali por uma viatura policial e provavelmente ambulância e carros de reboque.

Ligou para Alberto, que atendeu ainda entorpecido.

- Oi, Jorge!
- Oi, Beto! Como você tá?
- Cara, não estou entendendo nada até agora... Eu estava tentando entrar no seu apartamento e não sei como estou aqui dentro! Mas não me lembro como cheguei a entrar aqui, cara...
- Depois te explico! Isso, até eu já sei. Olha, Beto, eu liguei mesmo só pra saber como você estava... Acabei de bater o carro e estou esperando fazerem todos aqueles procedimentos insuportáveis pra sair daqui.
- Uma amiga sua veio te visitar. O nome dela é Cristina, parecia bem interessada em você...
- Ah, não! Ela é só minha amiga mesmo, Beto. E além do mais, você sabe, né... Não tenho preconceito nem nada, mas não é do tipo que me atrail... bem, as morenas... Eu gosto de branquinha e ela, você viu, é...
- Negra! E uma linda negra! E é uma hipocrisia de sua parte dizer que não tem preconceito! Lógico que tem, olha o que você acabou de dizer!
- Não, Betão... Trata-se de não sentir desejo, que nem eu não consigo sentir por... animais, objetos, árvores, por exemplo.
- Mas consegue sentir por loiras, morenas, ruivas...menos negras.
- Ah, Alberto! Não é hora de falar sobre isso agora. Depois conversamos, vou fazer o B.O. agora - Jorge se aborrecera por seu amigo estar questionando seus princípios e opiniões. - Tchau!



A praça estava fria e escura. Nem o sol fazia do lugar um ambiente mais quente. Lúcia estava lá, postada diante do banco de madeira em que Marina encontrava-se sentada. A novata se levantou, sem entender muito bem quem era aquela mulher de saias longas e cabelos dispostos em uma presilha no formato de borboleta próximo à nuca.

- Oi!
- Oi? Quem é você?
- Meu nome é Lúcia. Estou aqui a pedido do Jorge.
- Ah...Hum...O Jorge então...não vem hoje?
- Não, ele está viajando!
- Mas como eu vou pegar o...
- Ele já deixou comigo! Não sei o que tem aqui dentro, mas já está comigo. Ele me pediu para lhe entregar e avisar que não sabe se estará aqui em uma semana...
- Há! O Jorge é engraçado! Ele acha que pode comandar, mas esquece que quem manda aqui sou eu. Como ele ousa me dar regras...
- Mandar no Jorge? O que você é dele?
- Ah, você não sabe, pelo visto. Olha, não posso te contar, mas avise àquele fotógrafo de merda que eu quero ele aqui na semana que vem ou não guardo mais nada...
- Pode deixar que darei o recado - disse uma sorridente Lúcia.

Virou e entrou novamente no carro. Seguia com os olhos a jovem loira, que em poucos minutos abria um portão que dava acesso à um corredor escuro com escadas ao longo do mesmo. Viu que não demorou muito para a luz de uma das janelas do primeiro andar ser acesa. Nesse instante, Lúcia sai do carro e vai até um bar próximo, onde fica à espera de algum movimento no provável apartamento de Marina. A luz da janela se apaga e não se houve mais nenhum tipo de voz, ruído ou ventilação, sequer. Lúcia espera por alguma diferença. Em vão...


[CONTINUA...]



Por Pedro Henrique Castro.





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"Meias-Verdades" - Capítulo 10:"Simultaneidade"

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Meias-Verdades" - Capítulo 10: "Simultaneidade"

Jorge saiu sem rumo do prédio em Copacabana, uma vez que não sabia para onde ir. Ligou para Alberto, incomodado com a demora, pois precisava que o historiador além de lhe fazer o favor, lhe desse o endereço do "Estúdio Paradise".


O aparelho vibrava e girava no chão, as luzes piscando no rosto assustado de Lúcia e na bengala de madeira que era envolvida por suas mãos suadas. A mulher atacara o possível assaltante e agora via na tela do celular que havia cometido um erro. Resolveu que seria melhor atender a ligação enquanto o homem ainda encontrava-se desacordado.

- Alô?
- Alô? Deve ter sido engano, eu queria falar com...
- Não, você ligou para o número certo, Jorge! Aqui é Lúcia, sua vizinha... é que... Ai, nem sei como te falar isso! Bom... Qual o nome do dono do celular mesmo?
- Alberto.
- Então, eu achei que o Alberto estava...bem...estava tentando assaltar sua casa! Afinal, ele estava arrombando sua porta e isso não é comum nem em Ibitiba nem em...
- Ô, Lúcia, eu tenho pressa agora. - falou Jorge, sendo um pouco rude de certa forma com sua vizinha pela primeira vez - Passa pro Beto, por favor?
- Ele está desmaiado, Jorge!
- O quê? Mas o que você fez com ele, meu Deus?
- Eu o ataquei... com a bengala de minha tia. Não chegou a sangrar, mas ele não parece estar nem perto de acordar.

Jorge soltou um palavrão dos grandes. Não confiava em Lúcia como confiava em Alberto, mas questão de confiança agora era piada perto do que poderia acontecer se alguém não fizesse o que precisava ser feito. O fotógrafo respirou fundo.

- Lúcia, você vai ter de fazer um favor para mim.
- Faço o que você quiser.
- Você vai ter que entrar no meu apartamento, ir até o meu cofre e pegar um envelope pardo que já está fechado lá dentro. Depois disso, te digo o resto...
- Mas como vou entrar no seu...
- Não sei, Lúcia! Alberto estava tentando fazer isso pra mim, então como você fez a merda - Jorge não só soou rude, como foi agora - de atacá-lo, dê seu jeito. Me liga assim que estiver com o envelope, tchau.



As pernas de Lúcia tremiam. Ela pulava de uma varanda à outra, no encalço das grades, com um medo enorme de cair. Era sorte sua que as varandas eram coladas e a adrenalina foi curta. Chegou rápido ao cofre de Jorge, já sabia onde era. Ligou para o homem, que lhe disse a senha e deu as instruções do que deveria ser feito em seguida. Para alivio da mulher, uma das chaves estava próximo à porta. Abriu-a e arrastou o corpo do desmaiado Beto para dentro do recinto, colocando a chave ao lado do corpo do homem. Depois de anotar o número de Jorge em seu celular, pegou a chave de seu Fusca e saiu em direção à sua "missão".



A ansiedade do fotógrafo era tanta que ele mesmo entrara em uma lan house e pesquisara sobre o "Estúdio Paradise". Achou o endereço em um site que constava em manutenção já há muitos anos. Aproveitou e pesquisou sobre Heitor Denali e anotou tudo o que poderia lhe ser útil. Seu suor fazia de seu rosto um chafariz ambulante, mas ainda assim um chafariz que jorrava de amor por Alice. Somente por Alice. Pagou o período curto que acessou a internet e entrou em seu carro, dirigindo o mais rápido possível para o "Estúdio Paradise".



A campainha de Jorge tocara. Havia se passado poucos minutos desde o ataque, mas mesmo assim Alberto reagiu e conseguiu se levantar, ainda tonto. Não entendia o motivo de estar ali, mas não procurava a resposta naquele momento. Girou a maçaneta.



Eram 17:08. Sabe aquela estranha sensação de que somente você está fazendo algo, e que não existe a possibilidade de nada mais importante estar acontecendo no mundo? Mas essa tese é egocêntrica, e como o mundo é um fervilhão de acontecimentos, sempre vai estar acontecendo algo com alguém naquele momento. Algo realmente importante. Nenhum deles sabia disso, mas no exato momento, naquelas 17:08, muita coisa acontecia ao mesmo tempo.

Alberto abre a porta e depara-se com Cristina.
Jorge se distrai e seu carro se choca com mais outros dois.
Lúcia caminha até o meio de uma praça e posta-se diante de uma jovem loira.


[CONTINUA...]


Por Pedro Henrique Castro.


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"Meias-Verdades" - Capítulo 9:"Apartamento 402"


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"Meias-Verdades" - Capítulo 9: "Apartamento 402"

O porteiro interrompeu Jorge, que pensou que podia passar imperceptível pelo longo e estreito corredor espelhado.

- Pois não? - perguntou o funcionário.
- Apartamento 402, por favor... Diga que é o Jorge!
- Só um minutinho, senhor.

Após uma breve troca de palavras entre o porteiro e a outra pessoa, o homem de bigode disse:

- Ela pediu que o senhor espere 5 minutos antes de subir, Sr. Jorge! Disse que vai se arrumar, pois não esperava a sua visita.
- E não esperava mesmo! Nem eu esperava - e riu sarcasticamente o homem.

Olhou para a televisão ligada em um pequeno canto entre o interfone e um painel de comandos que deviam ser da iluminação do prédio.

- Flamenguista? - perguntou Jorge ao reparar na tensão do porteiro diante de um Fla x Flu que era transmitido aos 33 minutos do primeiro tempo.
- E Campinense eternamente de coração!
- Campinense? De onde é?
- Paraíba, sinhô - o porteiro já começara a mostrar as raízes - É como se fosse o Flamengo daqui tendeu? Lá também tem o Treze, o Atlético, o Nacional e até um Botafogo, pro sinhô ver...
- Hummm... Quando eu viajar pra lá, irei procurar uma camisa do Campinense! Virei Campinense depois de, claro, Vascaíno que sou... - disse Jorge.
- Ah, má num diga uma coisa dessas! Vasco da Gama, sinhô? Tem que torcer é pelo Flamengo!

E no exato momento, o Flamengo fez gol. A conversa fora interrompida pela calorosa comemoração do porteiro. Jorge, percebendo que se ficasse teria muito assunto pela frente, disse ao paraibano que subiria ao 402. O mesmo concordou somente com um gesto feito pelas mãos. Agora, estava ocupado demais comemorando.

- É meu Flamengo, meu Flamengo! Mengoooo!

Ainda no elevador, Jorge ouvia os gritos do porteiro. Também podia ouvir o bater de seu coração à medida em que ia se aproximando do 4° andar. Saiu e foi em direção à porta pela qual havia passado somente duas vezes em toda sua vida. De cara, ouviu a voz que esperava escutar.

- Como assim você vem sem avisar, Jorge?
- Boa tarde pra senhora também, Dona Magda...
- Ora, ora... Continua abusado!
- Posso entrar?
- Como se eu pudesse responder que não...

E Jorge foi entrando no claro recinto com cortinas de seda e sofás de couro. A família Menezes dos Santos não era rica, mas claramente tinham poder aquisitivo suficiente para cobrir suas necessidades e esbanjar de um pouco de conforto. Quadros antigos ocupavam grandes espaços nas paredes marfim, enquanto poucos porta-retratos dominavam a estante de prateleiras de vidro. O fotógrafo sentou-se no sofá de couro branco diante do convite de Sr. Miguel, que fazia o mesmo com sua esposa no par de carcaça branca.

- O que lhe traz aqui, Jorge?
- Gostaria de fazer algumas perguntas, Dona Magda.
- Então as faça! Anda, faça logo... Estávamos repousando.
- Pare, Marta! O coitado não sabia - disse Sr. Miguel à mulher.
- Não se vai à casa de ninguém sem avisos, meu amor! Isso é questão de educação, sempre fui bem-educada.

Miguel retirou-se da sala para ir à cozinha e buscar copos d'água para os três.

- Serei direto, então, para não demorar. Quero saber sobre o passado de sua filha.
- Ah, não! Ela já está morta, Jorge! Deixe-a descansar em paz.
- O problema é que há coisas no passado de Alice que preciso saber. Há pessoas envolvidas na história dela que me devem, mas não querem me dar explicação.
- O que você quer saber? - perguntou uma inconformada Dona Magda.
- Quando ela saiu de casa?
- Se quer mesmo saber, Alice saiu de casa aos 17 anos. E foi a pior coisa que fez em toda a sua vida. Não me entenda mal, rapaz... Não tenho ódio nem rancor de minha filha. Amo-a muito, aliás. Mas depois disso, ela já estava morta para mim.
- Mas porque tão cedo?
- Ah, a menina era sonhadora! Bonita, sempre foi e a sorte era questão de tempo. Bom, segundo ela, azar a meu ver. Um agenciador novato a indicou para uma agência de modelos. Fez algumas fotos, mas nunca sucesso. Depois disso, nunca mais tivemos bastante informações sobre ela, a não ser as poucas ocasiões do ano em que eu tinha que ligar ou vocês tornarem a me visitar, ou eu a vocês.
- A senhora conheceu algum Carlos?
- Ambos sabemos quem é Carlos, não é, Jorge? Acredito eu que não preciso lhe lembrar o mal que ele o fez... Aliás, ele e...
- Não, não! Nem me faça lembrar, mas digo... no passado de Alice, sabe de alguma relação que possa ter entre os dois?
- Que eu saiba, não! Nunca estudaram juntos, nem trabalharam juntos... Minha filha também não era de me contar tudo, ora bolas. Sei dos amigos que ela comentava, dos namorados que ela apresentava, mas em nenhuma dessas ocasiões ela citou o nome de Carlos.

Miguel já estava de volta à sala quando derramou um dos copos que vinha trazendo. Magda e Jorge levantaram prontamente para ajudá-lo, mas a madame insistiu que ele ficasse na sala enquanto buscava vassoura e pano de chão para ajeitar a bagunça. Já de pé, o fotógrafo fora conferir os porta-retratos sobre a estante. Apenas duas fotos de Alice tomavam lugar nos objetos, enquanto outros rostos se repetiam com muito mais frequência. O homem reparara também que em ambas as fotos, a amada devia ter menos de 15 anos.

- Dona Magda, porque a senhora tem apenas duas fotos de Alice em sua estante?

Fora Sr. Miguel quem respondeu.

- Jorge, sei que você deve estar se fazendo muitas perguntas, mas tem algumas que nunca devem ser feitas. Alice somente trouxe vergonha para nós desde que saiu de casa. Boatos foram espalhados, notícias chegaram as nossos ouvidos e desde então, ela sumiu de nossas vidas assim como sumimos da dela. Foi de bom agrado para ambos.
- Que boatos são esses, Sr. Miguel?

Foi então que Jorge se tocara de algo que havia se esquecido completamente. Pediu licença ao ex-sogro e ligou para Alberto.

- Alô, Beto, preciso que me faça um favor urgente!
- Opa! Mas porque a pressa, Jorjão?
- Depois te explico, Alberto. Só preciso que vá à minha casa e quando estiver lá, me ligue! Não posso dar mais explicações agora.
- Ok, ok! Estou indo agora mesmo...

Antes que a conversa voltasse a tomar seu rumo, Dona Magda - agora ao lado de Sr. Miguel - finalizou a mesma.

- Vá embora, Jorge! Vá, agora.
- Mas, gente...
- VÁ!

E o fotógrafo virou-se em direção à porta. Passou novamente pelo porteiro flamenguista, que agora comemorava o resultado do jogo antes mesmo do fim.

Não resistiu e chorou. Jorge caia em prantos como há muito tempo não acontecia. Lembrava de Alice e tentava entender o porquê de tantas coisas: a ligação entre ela e Carlos, os motivos que a levaram a ser assassinada, o que fizera entre seus 17 e 23 anos... Queria ter a amada de volta, mas sabia que isso já não era mais possível. Seu lado racional aceitava isso, mas o emocional ainda não... Uma dor perfurava seu corpo e seu coração de modo que o homem se contorcia no meio da rua. Não aceitava! Queria-a tanto que aos de fora poderia parecer algum tipo de obsessão, de posse, mas não era. Sabia e sentia que era amor, um amor que nunca poderia ser explicado, somente demonstrado, mas já não via mais formas e nem para quem demonstrá-lo. As lágrimas formavam um rio na maçã de seu rosto.

Seu celular tocara, interrompendo-o de suas ilusões e lembranças.

- Jorge, já estou na porta do seu apartamento, pode falar agora.
- Bom, você vai ter que entrar na casa pegando a chave reserva que fica dentro do vaso logo ao lado da porta.

Mas o historiador procurara o objeto em todos os cantos do vaso e não achara. Informou isso ao amigo, que não entendeu, mas não procurou pensar nisso agora. Como a mesma já não era usada há muito tempo, pensou que Alice poderia ter perdido ou estava escondido em algum lugar dentro da própria casa.

- Você vai ter que arrombar a porta ou entrar pela janela, Beto. Mas preciso de você lá dentro o mais rápido possível. Assim que conseguir, me ligue, ok?
- Mas você mora no 4° andar, seu maluco....

A ligação já havia sido finalizada. Alberto imaginou-se na pele de um rinoceronte e empurrão atrás de empurrão, foi atirando-se contra a porta do apartamento provocando barulhos absurdos em todo o prédio. Já voltava de costas pela sexta ou sétima vez quando algo o atingiu na nuca. Imobilizado, caiu duro batendo suas costas e cabeça no chão.


[CONTINUA...]


Por Pedro Henrique Castro.



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"Meias-Verdades" - Capítulo 8: "O curtíssimo capítulo sobre o maço de cigarros"

domingo, 18 de outubro de 2009

"Meias-Verdades" - Capítulo 8: "O curtíssimo capítulo sobre o maço de cigarros"

Jorge não resistiu. Parou em um posto de gasolina próximo e comprou uma maço de cigarros. Acendeu um deles e deu um profundo trago. A sensação de cansaço desapareceu instantaneamente.

Lembrou de Alice e de como ela, somente ela, conseguira livrá-lo do vício angustiante do fumo há muito tempo patricado pelo fotógrafo. Sentiu nojo da pequena chaminé que exalava por sua língua, seus dentes, sua boca e sua mente. Jogou fora não só o pequeno cigarrilho, mas sim todo o maço que havia acabado de comprar.

Chegou em frente ao prédio pelo qual havia procurado durante a última hora. Sentiu calafrios e percebeu que a conversa que viria a seguir seria intensa.


[CONTINUA...]


Por Pedro Henrique Castro.


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"Meias-Verdades" - Capítulo 7: "Adoráveis vizinhos"

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Meias-Verdades" - Capítulo 7: "Adoráveis vizinhos"

Deu uma vontade súbita de voltar à Ibitiba e embebedar Regina aos litros, só para ver se a mulher sabia de algo a mais. Já estava, porém, quase chegando ao Rio de Janeiro e achou mais válido seguir seu antigo raciocínio, até porque sua partida do bairro e consequentemente, a despedida dos vizinhos, não fora a mais simpática no que diz respeito à mulher do ex-amigo.

Assim que Jorge havia saído de seu apartamento, três pessoas estavam o observando. A primeira delas era Lúcia, uma mulher recatada e romântica, que sempre usara saias e prendia aos coques seu cabelo. Viera falar com ele.

- Jorge, não me diga que está indo embora! Não, Jorge, por favor... Não se vá! Você vai se recuperar, é tudo uma questão de tempo, e sem você por perto quem...
- Calma, Lúcia! Vou somente fazer uma viagem curta. Volto em alguns dias, pelo menos é o que espero. Você vai perceber que não será tempo suficiente nem para sentir minha falta.
- Eu duvido.

O segundo era Gregório, mas este simplesmente passou por ele e desejou-lhe "Boa viagem!" em um tom demasiado baixo. Não era para menos! O homem era calado com toda a vizinhança, e Jorge vez ou outra reparara nos olhares do homem na direção de Alice sempre que andava junto à esposa. Nunca foi tomar satisfações, mas também nunca deixou de encará-lo.

A outra pessoa era Regina. Esta, simplesmente, ficou parada à sua porta, sem mexer um fio sequer de seu cabelo. O brinco já não era mais de ouro como antigamente; Agora, eram de prata. O cabelo já não era mais tão tratado, estava oleoso e dava para ver as raízes não-feitas à distância em que Jorge se encontrava. Somente trocaram um olhar. Regina nunca soubera o real motivo da briga entre o marido e o fotógrafo, mas não arriscaria perguntar a nenhum dos dois e nem ousaria se despedir do inimigo de seu amado.

Chegando ao Rio, reparou que era madrugada e de nada adiantaria ir à tal endereço em pleno horário. Hospedou-se em um hotel barato e dormiu sem mais delongas.

O sol batia em sua cara como despertador. Espreguiçou-se, passou em um café de beira de estrada e seguiu em direção ao estúdio fotográfico. Não dera sorte. Ao chegar no tal endereço, vira que um salão de beleza ocupava o lugar. Que burro que foi! Havia se passado mais de dez anos que tais fotos foram tiradas e realmente acreditou que nada havia mudado...

Ligou para Alberto.

- Alô! Beto? Preciso que você descubra mais uma coisa para mim...
- Mas até agora não descobri nada!
- Essa é para agora mesmo, Betão! Com urgência. E deve ser fácil. Quero saber aonde posso encontrar o atual endereço do "Estúdio Paradise", é um estúdio de fotografia. Se não encontrar, quero que descubra o endereço de um fotógrafo... O nome dele é Heitor Denali.
- Ok, farei meu máximo! Enquanto isso, vá enrolando por aí...
- Sim, pode deixar que já sei exatamente aonde ir. - respondeu Jorge, girando a chave do carro e tomando rumo para a Zona Sul da cidade. Ia fazer uma "visita-surpresa"...



[CONTINUA...]



Por Pedro Henrique Castro.


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"Meias-Verdades" - Capítulo 6: "Apresentando Alice aos amigos"

"Meias-Verdades" - Capítulo 6: "Apresentando Alice aos amigos"

Seria uma longa viagem. Jorge já estava dirigindo seu carro havia mais de uma hora e não estava sequer a um terço do caminho. O Rio de Janeiro nunca pareceu tão longe, nem mesmo em seus pensamentos.

Enquanto dirigia, uma lembrança o tomou de assalto e não conseguiu contê-la. Era a noite em que havia apresentado Alice à Carlos. Tentava ver alguma dica, alguma falha de um dos dois que pudesse indicar o caminho certo de sua procura.

Era uma sexta-feira chuvosa de Abril, quando estava sentado junto à amada em um dos poucos bares da cidade. Era um local aconhegante, com voz e violão ao fundo, uma decoração até cuidadosa para o tipo de estabelecimento e um cardápio de dar inveja à muitos outros restaurantes locais.

Carlos chegara com sua esposa, Regina. Protegidos por um minúsculo guarda-chuva preto, o empresário tinha seu paletó tomado por pequenas gotas que caim trazidas pelo vento. Após os cumprimentos, ambos sentaram-se em uma mesa coberta com toalha xadrez vermelha e branca. Regina olhava discretamente para Alice, querendo fazer um análise que mostrasse um resultado de rejeição ou aprovação da nova namorada do amigo de seu marido.

- Carlos, Regina, quero que conheçam Alice, minha nova namorada e se Deus permitir, futura esposa.
- Mas já falando em casamento, Jorge? Fiquei sabendo que se conheceram há pouco mais de dois meses - bombardeou a mulher do empresário. Seus cabelos loiros e bem cuidados à altura do pescoço e um brinco reluzente de ouro deixavam à mostra não só seu status econômico, mas acompanhado por sua frase exprimia claramente a sensação de que queria estar por cima da situação.
- Mas já, Regina? Mal chegamos e olha a impressão que deixa à pobre garota... - censurou Carlos sua própria esposa.
- Não disse por mal! Oh, realmente não me entenda mal, querida. - A perua sabia usar seus dotes artísticos - Mas disse o que disse justamente por ela, Jorge. Falando desse jeito, já falando em casamento, vai assustar a moça. Que idade deve ter? Uns 27, 28... Espere para falar em casam...
- Tenho 24. - respondeu Alice, não em tom bruto, mas mostrando firmeza.
- Ai, mas que gafe a minha! Me desculpe, me desculpe, mil desculpas, darling! Chutei a idade pois Jorge tem 30 e...
- Tenho 25, Regina! - respondeu o fotógrafo, já mostrando certa impaciência com a esposa de seu prezado amigo.
- Amor, por favor, fique calada! A única que chegou aos 30 aqui, e aos 31 para ser mais exato, foi você! Eu e Jorge estudamos juntos, ambos temos 25 e o único a ter queda por mulheres um pouco mais velhas entre nós dois sou eu... Jorge sempre preferiu as mais novas que ele - Carlos deu uma piscadela para o amigo, como que para lembrarem de um ou mais episódios em que Jorge fora "papa-anjo".
- Eu...só...pretendia ajudar! E não precisa...jogar em minha cara....que sou mais velha que você...Se quiser...me chame de VELHA diretamente, Carlos - as pausas em sua frase anunciavam que a mulher iniciaria em instantes um rio de lágrimas que, pelas reações alheias, Jorge e Carlos já estavam bem habituados. - Se me dão licença...vou ao toilet...retocar minha maquiagem e...volto em breve.

Regina saiu desconsolada. Já não se ouvia mais o som de sua voz aguda reclamando à si mesma do marido ter a repreendido na frente dos outros.

- Devo...ir atrás dela? Ela não me parece bem, a essa altura está chorando. Acho que vou ao banheiro falar com ela, tentar consolá-la ou algo do tipo - sugeriu Alice, gentilmente.
- Que nada! É quase sempre assim. Regina gosta de dar seus shows, acho que um dia ainda tenta a carreira artística. Você vai ver como daqui a pouco ela está de volta repetindo as mesmas besteiras de sempre. E se tiver azar, ainda pega o pior: as mesmas besteiras vindas de uma Regina bêbada! - disse Carlos enquanto apoiava uma de suas mãos na mão direita de Alice, que por instinto, recolheu-a.

Jorge não sabia os motivos, mas achou que fosse pela forma como Carlos falou da própria mulher. O fato era que sua namorada e seu amigo evitavam ao máximo se olharem, porém quando o faziam, deixavam uma inquietude à solta no ar. O empresário estava certo: sua esposa voltou muitos minutos depois. Ligeira, mas visivelmente bêbada. Conversavam agora sobre a rotina do casal.

- Graças à Deus, Carlos parou com essa ideia maluca de ter duas empresas em lugares diferentes há dois meses já! Eu não aguentava mais essa ida, vinda, ida, vinda, ida, vinda, ida ao Rio! Olha, Jorge, vou te contar... Tenho horror àquele lugar só por ter me tomado meu Carlinhos. - e beijou o marido, precisando agarrar seu rosto com ambas as mãos.
- É, os negócios lá não estavam indo muito bem...Resolvi ficar somente com a empresa daqui mesmo. - completou o marido como se devesse explicações ao resto da mesa.
- Você veio do Rio, né, ma chérie? Há dois meses também, não foi?
- Não, vim há quase três...
- Você e Carlinhos poderiam ter se conhecido até no avião, porque não?
- Vim de ônibus para cá...
- Olha, Jorge! Como você mesmo está vendo, Regina não está em seu melhor estado...
- Eu estou óoooootima!
- Tome aqui para pagar nossas despesas, pois vou levá-la para casa agora. Tchau, meu amigo. Prazer em conhecer, Alice.
- Tchau - ambos disseram ao casal que ia embora.

Isso havia sido há pouco menos de nove anos, mas Jorge chegou à uma conclusão daquela noite que nunca havia chegado antes: Regina não dizia somente besteiras.


[CONTINUA...]


Por Pedro Henrique Castro.



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"Meias-Verdades" - Capítulo 5: "A mais bela dentre as flores"

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"Meias-Verdades" - Capítulo 5: "A mais bela dentre as flores"

A conversa se estendera por algumas horas. Jorge não podia negar que a presença de Cristina era, no mínimo, agradável. Falaram sobre a vida dela, sobre a vida dele, e sobre todos os assuntos que qualquer grupo de conhecidos conversaria.

Já havia escurecido quando o fotógrafo tornou a pensar em Alice. Recordou detalhadamente como haviam se conhecido:

Jorge, no auge de seus 25 anos, estava fotografando para o editorial de uma revista de paisagismo. Clicava gramados, árvores, plantas, quando apareceu no fundo de suas lentes a mais bela das flores. Não era petúnia alguma, muito menos bromélia, nem sequer um girassol. A flor era alta, magra, tinha cabelos compridos e morenos, lisos como cachoeira; esmeraldas brutas ocupavam o lugar dos olhos, enquanto o nariz era pequeno e levemente arrebitado; a boca sutilmente carnuda se encolhia para molhar os lábios ao mesmo tempo em que uma das mãos acomodava o longo cabelo moreno atrás da orelha. A flor tinha nome, sobrenome e Jorge não se aquietaria enquanto não descobrisse o que nenhum dos botânicos jamais havia descoberto.

Pendurou a câmera ao redor do pescoço e foi em direção à magnitude parada em cima da pequena ponte que dividia o jardim da calçada de pequenas pedras. Não tardou a falar algo, por mais que as palavras pareciam sair totalmente atropeladas...

- Oi, tudo bom?
- Tudo, e com você, tudo bem também?- replicou com simpatia a jovem moça.
- Melhor agora - respondeu um tímido Jorge. - Não tinha visto ainda você na cidade... Está de passagem por aqui?
- Não, estou morando aqui há algumas semanas já, mas não saí muito de casa ainda. Sabe como é mudança, né? Arrumar a casa, limpar tudinho, pintar, reparar, instalar a iluminação...
- Mentira! Uma mulher que sabe trocar uma lâmpada? Tá falando sério?
- Ora, você acha que mulher só sabe pilotar fogão? - afrontou a morena.
- Não, claro que não... Mas que é raro é! Qual o seu nome?
- Alice. E o seu?
- Jorge, prazer - e estendeu as mãos como indicativo para um aperto.
- Prazer - retribui a linda jovem respondendo ao aperto de mão.
- Olha, não sei se você vai me achar abusado... Mas você deve ter reparado que sou fotógrafo e... Bom, não poderia deixar de perguntar. Posso tirar umas fotos suas? Te dou certeza que fariam enorme sucesso em minha galeria.

A jovem caiu em risos e respondeu ao fotógrafo.

- Será meu último trabalho como modelo! E considere uma sorte, pois já faz um tempinho que não fotografo... É só porque... gostei de você. - e Jorge viu o sorriso mais tímido e a mexida de cabelo mais sutil que já havia visto em toda a sua vida.
- Você então é modelo?
- Era! Parei aos há dois anos atrás, quando tinha 22. Você, como fotógrafo, deve ter conhecimento de que a idade influencia muito nesse meio.
- Mas com 22 anos você ainda era jovem... Tem modelos que exercem a profissão até seus 30, 40 anos... Você seria uma delas facilmente!
- Ah, são raras... Resolvi não arriscar! Vamos às fotos? - Alice encerrou a conversa começando uma sessão de fotos que estava deixando Jorge nas nuvens.

Depois da sessão, foi um pulo para o cinema, os encontros, até começarem o namoro em definitivo. Morar juntos só aconteceu três anos depois, a convite de Jorge. Os outros seis anos restantes foram de muitas alegrias e algumas decepções, até chegar ao dia da morte da amada.

De repente, um feeling. Foi assim que Jorge lembrou-se que Alice trabalhou como modelo e fazendo um alvoroço em caixas velhas, começou a revirar todos os objetos guardados pela mulher à procura de uma foto sua, alguma pista, algo que indicasse Carlos em seu passado. Revirou o baú, literalmente. Por fim, acabou achando um envelope com fotos de Alice em lingeries e imaginou tratar-se de um anúncio para alguma campanha de roupas íntimas. Anotou em um papel o endereço e o nome do estúdio onde as fotos foram reveladas. Era na cidade grande, onde morava Dona Magda e Sr. Miguel.

Resolveu verificar se a tão reclamada distância informada pela ex-sogra chegava a tanto. Estava decidido a fazer tal viagem e começou a arrumar uma mochila com poucas roupas e alguns objetos em questão de minutos.

Jorge começara a mexer no passado de Alice, pretendendo assim ajeitar seu presente e seu futuro.


[CONTINUA...]


Por Pedro Henrique Castro.


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"Meias-Verdades" - Capítulo 4: "Prazer em conhecer, Cristina"

"Meias-Verdades" - Capítulo 4: "Prazer em conhecer, Cristina"

Alberto, Beto, Betão, Bebeto. Várias eram as formas de se chamar um mesmo indivíduo: Alberto Ferreira Goulart, um amigo de longa data de Jorge que tinha por profissão a função de historiador e por hobby, a prática de pesquisar, recolher informações, saber um pouco a mais do que lhe era informado.

Era para o mesmo que Jorge havia ligado duas vezes em menos de dois dias. Na primeira ligação, pediu ao amigo que o ajudasse a descobrir quem havia matado Alice; Na segunda, no entanto, pediu que investigasse como era possível Carlos já ter conhecido a amada antes mesmo do início de seu namoro. Alberto era bom em procurar livros, notícias, mas nunca ousara a ponto de revirar o passado de uma pessoa. Nem ele nem o fotógrafo sabiam como iriam fazer, mas prometeram ao menos tentar.

Jorge já estava em casa preparando chá quando a campainha tocou. Não esperava visita alguma, menos ainda desejava alguma. Olhou pelo olho-mágico e confirmou que era a mesma policial negra que o interrogara na fatídica noite da semana. Reparou, no entanto, que a mulher não usava seu uniforme e deixava solto os longos cabelos que caiam ondulados até a metade de suas costas. Ao abrir a porta, a grande boca da mulher encheu-se de palavras.

- Vim entregar a cópia da gravação do circuito de câmeras do banco. Obviamente, você tem seu álibi apresentado e está livre para ir onde desejar...
- Obrigado! Não pretendo ir a lugar algum, ao menos, por enquanto. Só quero mesmo é que descubram e façam justiça ao assassino de minha... mulher - Jorge hesitou, pois legalmente não podia denominar Alice como sendo sua esposa.

O homem olhava a mulher em sua frente dos pés à cabeça. Não! Não era desejo, mas reparava na calça jeans, na blusa com bordas de renda e na discreta maquiagem em seu rosto, que de certa forma, a transformava em um cisne diante do patinho feio que tomava seu lugar enquanto prestava serviço. Percebeu que não conseguiu ser discreto quando a moça tornou a falar.

- Você não deve estar entendendo nada em relação a minha roupa, né? - sorriu acanhada e deu uma breve risadinha. - Bom, vinha um outro policial lhe dar a notícia e entregar o DVD, pois eu já estava de saída. As próximas 48 horas são meus valiosos dias de folga. Eu que pedi ao Pacheco para vir aqui, pois precisava falar com você.
- Só me surpreende... Toda aquela formalidade parece ter desaparecido - e Jorge também deu uma breve risadinha seguido de um sorriso acanhado. A policial... qual seu nome mesmo?
- Cristina.
- Então, a policial Cristina teria dito: " Vim lhe entregar, senhor, a gravação que o inocenta da acusação de homicídio da Srta. Alice Menezes dos Santos. O senhor está apto a..." - Jorge pronunciava em um tom bastante formal e direto, quase cortando toda e qualquer emoção que pudesse existir em sua frase. Doeu dizer o nome de Alice, mas fora interrompido pela policial.
- Vim aqui pedir desculpas justamente por isso. Eu sei que fui fria e confesso à você, e espero que isto fique somente para você - disse em voz baixa - que também não gosto de fazer aquele interrogatório todo. Mas era meu dever e tinha que seguir as regras. Você deve saber disso, não é? Você também trabalha...
- Sou autônomo.
- Ah, bem...sim...Mas, enfim, eu sabia desde o momento em que te vi que você era inocente. Por mim, não teria nem te levado à delegacia, mas...regras do trabalho!

Dessa vez, os dois deram risadinhas um pouco mais longas e acanharam-se menos.

- Você não tem o que se desculpar. Confesso que tive vontade de lhe xingar, lhe matar, mas no fundo, sabia que a culpa não era sua. A culpa era da dor que ainda sinto.
- Melhor assim! Não...Ai, me desculpa...Não me referi à dor, e sim à...ah, você entendeu, não entendeu?

Jorge rira pela primeira vez desde a morte de Alice. Ainda um riso desanimado, mas não era forçado. Lembrou que no domingo, Cristina parecia um homem afeminado de cabelos curtos, e hoje não via resquício algum de sua lembrança.

- Bom, vou indo. Já falei o que tinha pra falar, agora já estou enchendo seu saco e...tchau! - virou-se e caminhou corredor afora.
- Ei! Volta aqui... Fique mais um pouco. Estava fazendo um pouco de chá e pode acreditar que tem o suficiente para nós dois. Entre e vamos conversar mais. Você me conta da investigação, das pistas que... - o homem foi interrompido.
- Olha, Jorge, me desculpa mais uma vez, mas não estou aqui para falar de trabalho. Tudo o que quero nesses dois dias é esquecer um pouco que seja do trabalho. Você me entende?
- Claro! - Jorge concordou, pensando também que precisava aliviar sua dor naquele momento. Tudo que queria ainda era Alice, mas isso não era possível. Ainda lhe interessava saber tudo sobre o caso que envolvia a amada, mas viu naquela mulher a oportunidade para abstrair sua dor e tomar seu chá antes que esfriasse. - Entra, Cristina! Prometo não falar do seu trabalho. Vamos conversar sobre outros assuntos.

E a policial negra, naquele momento despida de sua função, voltou e atravessou aquela porta pela segunda vez, agora como convidada. Sentou-se no sofá, pegou uma das xícaras que Jorge havia lhe estendido e logo levou a mesma à boca. Ambos se olharam enquanto matavam sua sede e enxergaram que começara ali uma sólida e íntima relação de amizade.


[CONTINUA...]


Por Pedro Henrique Castro.


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"Meias-Verdades" - Capítulo 3: "O baque de Jorge"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"Meias-Verdades" - Capítulo 3: "O baque de Jorge"

Dois dias haviam se passado. Desde a saída da delegacia, não houve muito na vida de Jorge, senão um telefonema, o velório e agora o funeral de Alice. Poucas eram as pessoas ao redor do caixão, que lentamente ia tomando seu lugar. Os pais da falecida, Magda e Miguel, chegaram ao recinto após o momento em que o padre começara a falar. Estavam calados, frios. A lágrima solitária no rosto de Dona Magda era como uma gota diante da cachoeira provocada por Jorge dias atrás. O fotógrafo, porém, entendia. Naquele momento, sua reação era igual ou mais gélida que a dos pais de Alice. Já havia chorado tudo o que poderia ter chorado. Olhou para a lápide e leu o nome "Alice Menezes dos Santos". Arrependeu-se de não ter lido "Alice Menezes dos Santos Sá", arrependeu-se de nunca ter a pedido em casamento.

O corpo já não era mais visível. A terra começava a tornar-se o lar da amada Alice. Enquanto os poucos que ali estavam tomavam seus rumos, Jorge e Dona Magda trocaram algumas palavras.

- Nunca entendi! Nunca entendi o motivo dela ter vindo morar aqui, tão longe de nós. Ela nunca foi muito apegada à família, mas esconder-se nesse fim de mundo...
- Alice me contou que sempre quis ter uma vida mais tranquila, Dona Magda. Por isso veio pra cá.
- Agora então ela tem a tranquilidade que tanto desejou... - finalizou Sr. Miguel, empurrando a mulher pelas costas em direção ao carro.

Jorge nunca soube os reais motivos da vinda de Alice para a pequena cidade. Quando se conheceram, ela já morava - mesmo que há pouquíssimo tempo - em Ibitiba. Ia embora quando um sujeito com um buquê de lírios em mãos aproximava-se do sepulcro de sua alma. Era Carlos. A fúria tomou conta de Jorge, e a primeira e única coisa que fez foi ir em direção ao rival e empurrá-lo com o máximo de força que podia. A briga nem sequer começou quando os dois iniciaram uma discussão.

- Como você ousa vir aqui, seu imundo? Nem você e nem suas flores são benvindos.
- Ela me amava Jorge. Antes mesmo de amar você, se é que amou, ela me amava.
- Seu filho-da...
- Eu a amava também. Talvez, confesso, menos do que você. Ah, você a idolatrava, né? Tratava-a como santa, como sua fonte de amor, de vida, de esperança... Um imbecil! Eu, ao menos, a amava sabendo quem ela era.
- Você é maluco! Mal sabia de Alice... A única intimidade que teve com ela...
- Não, você que se engana. Eu conhecia Alice há muito tempo, muito antes dela chegar aqui.
- Me conta isso, seu merda!
- Eu não! Que descubra por si só. Você sempre gostou de bancar o detetive, né? Desde os tempos do colégio... Sempre gostava de descobrir algo a mais. Mata essa charada, então...

Era o suficiente para Jorge. A revelação de que Alice e Carlos já se conheciam foi o baque que o fez sair do cemitério. Agora, realmente queria "bancar o detetive", como disse Carlos. Pela segunda vez naquela semana, ligou para Alberto.

Por Pedro Henrique Castro.



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"Meias-Verdades" - Capítulo 2: "Na delegacia"

"Meias-Verdades" - Capítulo 2: "Na delegacia"

Jorge não podia e nem queria acreditar. Seu sonho, sua mente, seu coração, sua razão de viver estava ali, caída ao chão, olhos semi-cerrados que ele próprio fechara com os dedos. O pranto fez-se manto de Jorge.

Por um momento, pensou em se matar; O mesmo pensamento ocorreu-lhe outras vezes em todos os momentos em que estava ali junto ao corpo de Alice. Os vizinhos, alertados pelo desespero nada silencioso do fotógrafo, foram aparecendo à porta aos poucos. Em instantes, a polícia foi acionada junto à ambulância. Não tardaram muito a chegar, tanto quanto fora a demora para convencer Jorge a separar-se do corpo da mulher. O homem sentia-se como um cordão umbilical de sua amada, e tais policiais fizeram o corte cirúrgico que todo obstreta necessita fazer diante do nascimento de uma criança.

Vazio. Era essa a sensação do infeliz naquele instante. Sempre teve uma ideia de frieza relacionada à policiais. No minuto seguinte, teve a certeza:

- Nome, por favor? - perguntou a policial negra.
- Jorge.
- Completo.
- Jorge Otávio de Almeida Sá.

Não acreditava que estavam lhe fazendo perguntas diante de tal acontecimento. Poderia um ser humano ser insensível a tal ponto?

- Sr. Jorge, queira me acompanhar, por favor, para fora do local do crime. O senhor será escoltado imeadiatamente até a delegacia mais próxima para recolhimento de testemunho e outras informações que puderem servir no prosseguimento da investigação. Após feito o boletim de ocorrência, o senhor estará livre para voltar a seus afazeres.

"Voltar a meus afazeres?", pensou Jorge. Teve vontade de gritar com a policial, dizer que seus afazeres haviam terminado ali, naquela noite. Nesse momento, não pensou mais em suicídio, e sim matar a negra à sua frente, tamanha raiva que estava. Por sorte e pelo pouco de sanidade que lhe restavam, não o fez...

Fora uma longa noite para Jorge. Contara aos policiais todo o seu dia anterior, omitindo apenas o nome de Marina e consequentemente, o porquê de ter se encontrado com Marina. Isso só dizia direito à ele mesmo e à garota. Negara qualquer inimigo que Alice pudesse ter - realmente não recordava de algum possível... -, negara qualquer desavença entre o casal - ambos não brigavam há bastante tempo, e do mesmo jeito Jorge nunca levantara sequer a mão para Alice - , e negara qualquer motivo que pudesse ter levado à tal crime.

No decorrer do depoimento, fora recolhendo informações que chegavam sobre o denominado "Caso Alice": segundo os legistas, a mulher havia sido assassinada por volta de 19 horas, levando em consideração o tempo em que o sangue parara de correr pelas veias sanguíneas e outros fatores médicos... O termo "assassinato" fora de fato usado, pois além de esfaqueada, Alice estava também com sinais de estrangulamento, que fora de fato o real motivo de sua morte. A faca encontrada no chão próximo à cozinha não continha sinais de sangue e fora levada para análise de digitais. Tudo indicava que após ter tirado a vida de Alice com as próprias mãos, cordas, ou qualquer objeto que fosse no pescoço da mulher, o assassino a esfaqueou e fugiu pela porta de entrada ou pela janela. Jorge também ouvira que os vizinhos foram questionados, e nenhum disse ter ouvido sinais de arrombamento de porta, gritos, discussões ou qualquer atitude suspeita.

De acordo com os relatos de Jorge, o delegado concluiu que o álibi do fotógrafo estaria gravado na fita da agência bancária da qual o mesmo afirmara estar na hora do assassinato. O responsável pelo caso, Dr. Pacheco, informou que até que a polícia estivesse em posse da gravação, Jorge estaria livre, porém impedido de sair da cidade. O mesmo concordou, logicamente. Não tinha intenção de sair de seu corpo, quanto mais de sua cidade. Pacheco prometera à Jorge resolver o crime. O que não sabia, é que Jorge nunca acreditara em promessas.

Saiu da delegacia e foi para o hotel mais próximo. Agora já não pensava mais em se matar, ou matar a policial negra. Pensava em vingança, gostava da ideia de saborea-la, desfruta-la em cima do animal que tirara a vida de sua Alice. Pacheco não teria a mesma convicção, não era sua esposa que estava morta, ensanguentada, que não teria um funeral digno por ter tido o corpo totalmente estraçalhado.

Pensou em tudo. Tudo mesmo. Pensou principalmente em nomes, em pessoas. Alice, Marina, Diego, Carlos, Regina, Lúcia, Gregório, a policial negra, Pacheco, Amália, Amaury, Magda, Miguel...

Pnesou em vingança. Pegou o celular e ligou para Alberto.


[CONTINUA...]


Por Pedro Henrique Castro.



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"Meias-Verdades" - Capítulo 1: "A jovem loira, o ex-amigo e Alice"

domingo, 11 de outubro de 2009

"Meias-verdades" - Capítulo 1: "A jovem loira, o ex-amigo e Alice"

Era uma fria tarde de domingo. Jorge caminhava distraidamente por aquela praça enfeitada com três bancos de madeira, alguns poucos postes de luz - e nem todos os postes estavam com as luzes acesas - e o chão carpeteado pelas folhas secas caídas das árvores que ali cercavam. Carregava em seus braços somente um pequeno caderno preto e um envelope branco visivelmente com algo dentro. O vento forte fazia juz à aparência séria do homem de 34 anos. Já era rotina para o fotógrafo ir frequentemente àquela praça ao alvorecer.

Caminhou até o centro da praça, onde avistou uma mulher loira, aparentemente bem nova, sentada em um dos bancos. Mascava chiclete e deixava à mostra os fones de ouvido devido ao cabelo preso em rabo de cavalo. Aos que olhavam de longe, parecia que os dois nunca haviam se visto e que o encontro de ambos era um acaso completo. Por um minuto, até Jorge pensara que continuaria sua caminhada sem parar para falar com a jovem loira, mas no instante em que o homem se posicionou em sua frente, a mesma se levantou. Após uma breve troca de olhares e um sorriso de canto de boca da moça, as primeiras e poucas palavras foram trocadas:

- Se atrasou hoje, hein, Jorge...
- Somente o necessário, Marina, por favor!
- Mas você não quer nem sa... - A frase não chegou a ser completada, pois a garota foi bruscamente interrompida por uma enfática e sonora negação como resposta para sua possível pergunta.
- Agora vá! Vá, anda logo! - disse Jorge após entregar o envelope à jovem loira.

O homem retornou em direção de onde viera e saiu amargurado da praça. As finas gotas de chuva começavam a cair, e quando Jorge virou o rosto para proteger-se da violenta mistura do vento forte junto à camada de chuva, Marina já não estava mais em seu campo de visão.

A sétima badalada acabava de acontecer no momento em que Jorge se encontrava entre a catedral e uma agência bancária da qual havia acabado de sair. Passou por uma livraria, uma farmácia, uma papelaria e por Carlos. No momento em que os olhos castanhos de Carlos passaram pelos olhos vermelhos de Jorge, tanto a livraria, quanto a farmácia e a papelaria pareciam ter sumido do mapa. O antagonismo entre os dois já era antigo e conhecido por todos da redondeza. O motivo, no entanto, lhes conto em breve...

Jorge apressara o passo para evitar qualquer confusão com aquele que um dia já fora seu amigo. Parou, ofegante, apoiando os braços em uma mureta sob o espelho da fachada de um prédio comercial. Olhando para si mesmo, Jorge se achou velho, infeliz, acabado. Queria livrar-se de sua amargura; Forçava-se a pensar em coisas boas; Precisava pensar em Alice.

Na verdade, nem preciso era. Alice era a íris dos olhos de Jorge; Alice era o nome de dez das dez coisas em que Jorge pensava diariamente; Alice era o e o coração de Jorge. Por um minuto, o fotógrafo fechou os olhos e imagens, vídeos, sons vieram à sua cabeça: Lembrou-se da primeira vez que vira Alice, do primeiro beijo entre os dois, do sorriso e da mexida de cabelo que faziam Jorge ficar encantado sempre que a mulher repetia os mesmos gestos... O homem achou-se idiota por continuar parado e não viu outra opção, senão ir para casa encontrar Alice e enchê-la de abraços, beijos e carinhos sem ter fim...

As lembranças recentes deram à Jorge o primeiro sorriso do dia, que permaneceu em seu rosto até o momento em que girou a maçaneta e abriu a porta de sua casa. O tal sorriso desapareceu com a mesma facilidade que havia surgido. Lentamente, Jorge entrou e se ajoelhou diante de um corpo branco e gélido como a neve; Apoiou-se sobre um coração sem batimentos; Olhou diante de olhos ainda abertos, porém sem movimento; Banhou-se em um rio vermelho do qual ele nunca imagira e sequer gostaria de se banhar.

Não reparou nos objetos quebrados em sua sala, na faca caída ao chão próximo à cozinha, na janela aberta deixando esvoaçar sua cortina.

Era o corpo de Alice deitado no chão. Morta por fora, morta por dentro.
Era o corpo de Jorge debruçado sobre Alice. Vivo por fora, morto por dentro.


[CONTINUA...]


Por Pedro Henrique Castro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

sobre a (falta de) confiança.

Não se segue sem ela.


E tudo fica por um fio;
Um único fio chamado "comodismo".



Hora de mudar?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

sobre como perdi amigos ao longo do tempo.

Amigo que é amigo não tem prazo de validade.
Mas para certos casos, o destino reserva uma ou outra infeliz incidência que acaba por separar bons e velhos companheiros, colegas, amigos, irmãos.

Muitos podem me achar um tanto quanto novo para falar do assunto ou achar ousada a forma pela qual optei falar, mas a verdade é que não tenho mais tantos amigos como antigamente.



Alguns ausentes pela mais simples das razões, a distância.
Outros ausentes pela incompatibilidade de gênios e assuntos.
Poucos, mas ainda assim importantes, ausentes pelo início de um namoro.
E muitos (e quando digo muitos, não é um exagero!) ausentes por consequência de fofocas, boatos e outros atos de ambas as partes.


Podem não acreditar, mas de vez em quando me pego chorando por esses amigos perdidos. Fazem tamanha falta no meu pacato cotidiano...

E é por isso mesmo que venho aqui desabafar o quanto eu sinto saudade:

. das gargalhadas ao telefone com a Pereira, das conversas com a Albernaz, do jeito livre, leve e solto da Rachel, das prometidas sessões de filme com a Marina, da firmeza do Teixeira, da lealdade do Júlio, da inocência da Tamires, dos telefonemas sempre cheio de assunto com o Renato, do sarcasmo do Leandro Brito, dos pulos da Flávia, dos abraços da Marianna, do fashionismo da Letícia, das viagens com a Anna, dos bons tempos com o Cordeiro, das palhaçadas do Caio, da sensatez do Botelho, da loucura da Carolzinha, da voz fina da Gabrielle, das chances com a Bárbara, da meiguice da Mariana, do destino que me uniu à Yani. E lógico, das festas. De todas as festas e reuniões que nunca poderão voltar...

. dos intermináveis encontros de família com a Carla, Carol, Marcela, Gabi, Ana Paula, Bruno.

. dos dias na casa da Zali e Patrícia.

. dos meus encontros furtuitos com o Avner, Tomás e Luis Felipe, das conversas no MSN com o Biel, das risadas da Beca, das piadas da Gaba, do companheirismo do Tubbies, da ironia do Leandro Augusto, dos segredos eu e LH, e da maravilhosa química um dia existente com Vincius e Felipe Marques...




Perdi amigos. Tento recuperá-los.
Espero...

sobre o imperativo.

Assim como eu, todos um dia já foram alvos do imperativo.
Emissores ou receptores, eis uma praga que, literalmente, tende a imperar.

Frases desmedidas e bem diretas como "Faça isso" ou "Faça aquilo", "Não coma isto!" ou "Não diga nada!" ou então simplesmente bem sutis, quase escondidas em situações do tipo "Eu gostaria que não abrisse aquela porta" ou com um tom quase que feroz se mostram cada vez mais frequentes em nossa rotina.

A minha, principalmente...


- EMAGREÇA!
- NÃO COMA TAL COISA, NÃO BEBA TAL COISA!
- NÃO FALE COM FULANO...NEM BELTRANO....NEM SICRANO!
- COMPRA PRA MIM!
- VENDE PRA MIM!
- CORRA, PEDRO HENRIQUE!
- NÃO CONTE À NINGUÉM, OK?!
- ME LIGA! DIZ QUE ME AMA!


O fato é que imperativo é...digamos, assim...uma M.
Das grandes!

Ordenar alguém é extrair sua liberdade, desejar sua submissão.
Na maioria das vezes, um conselho mal dado ou um papo furado são cortinas a esconder uma marionete.



Uma dica?
Faça o que lhe der vontade.
Sem imperativos, por favor.

terça-feira, 16 de junho de 2009

sobre o abrir dos olhos.

Hoje acordei com vontade de ter vontade.
De nada adiantou... O desânimo bate à porta dos olhos frequentemente...

Dia, Tarde, Noite, Madrugada.
As horas passam arrastadas, e eu sequer percebo a falta que a falta faz.
E se Tim Maia pediu motivos para ir embora, eu peço motivos, inquestionáveis, fundamentais, mil motivos para ficar!

O silêncio atormenta, denigre, sufoca.
Um grito de socorro!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

sobre pedro henrique castro cardoso.

Ego.

Todos o possuem.
Pode ser alto ou baixo, forte ou fraco, hiper, super, ou simplesmente cêntrico.
Meu ego tem nome e chama-se Pedro Henrique.

O Pedro Henrique Castro Cardoso é parte de um mundo fictício, um espetáculo com estréia no vigésimo segundo badalo do vigésimo quinto dia de abril, do ano de 1989.

O tal Pedro Henrique consta apenas na certidão de nascimento, identidades, passaporte, carteira de trabalho e outras convenções que baseiam-se na não-realidade...

Esse Pedro Henrique lida com a posse, a obsessão, o ciúme.
Lida com a raiva, a agonia, o fracasso.
Pedro Henrique já não existe mais...


Me auto-denominei há muito tempo.
Me chamava Pedro Henrique Castro Cardoso, mas agora pode me chamar de ph*!

sobre ph*

E se todos possuem um alter ego, o meu se chama ph*.

Pois é o ph* que ri, que se apaixona, que argumenta, que elabora, que pula, que sobe, que desce, que canta, que dança. É o ph* que quer ser mais do que já é.

Aquele que chora, que sofre, que cria, que faz é o ego, o meu próprio ego. É ele o responsável por não ser nem aquilo que já é.

Meu nome é Pedro.
Meus pais me chamam de Pedro Henrique.
Minha família me conhece por neto querido, sobrinho adorado, primo amado, irmão estúpido.
Meu amor me apelida de guxi, xizi ou...bom, aí depende muito do humor...

Meu nome é Pedro, mas para todo e qualquer caso pode me chamar de ph*!